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Brasil e Irã: o que o sistema dos aiatolás e o Brasil têm em comum?

  • 3 de abr.
  • 3 min de leitura

À primeira vista, Brasil e Irã parecem bem opostos. O Irã é uma teocracia governada por líderes religiosos com poder militar próprio. O Brasil se apresenta como uma democracia com três poderes independentes.


Parece que não existe semelhança entre os dois países. Mas quem empreende no Brasil percebe um paralelismo surpreendentemente próximo. Surgem semelhanças desconfortáveis na relação entre Estado e economia. Em ambos os países, existe um grupo que controla o sistema e vive da riqueza produzida pelos outros.


Semelhança 1: relação entre Estado e economia


No Irã, o controle do Estado é feito pelos aiatolás e pelo seu grupo armado, a Guarda Revolucionária (IRGC), que, entre outras atividades, controla a logística de distribuição de combustíveis, alimentos e mercadorias.


No Brasil, o controle é por uma casta burocrática/estatal. Leis complexas, sobreposição de generosas taxas, controle de mercado, logística e um poder público centralizado impedem a redução de custos e o livre mercado. Políticos, burocracias estatais e o Judiciário frequentemente atuam como fiadores desse arranjo.


O resultado para quem produz é o mesmo: asfixia econômica e perda progressiva de patrimônio.


Semelhança 2: O povo como ferramenta de mobilização


Regimes precisam de narrativa. No Irã, o regime utiliza as sanções internacionais e os conflitos com Israel e Estados Unidos para alimentar um discurso de resistência. O sofrimento da população se transforma em combustível ideológico.


No Brasil, a lógica não é muito diferente. A pobreza crônica, a precariedade educacional e as desigualdades sociais viram matéria-prima para um permanente marketing político. A população deixa de ser protagonista e passa a ser instrumento de mobilização eleitoral. Em vez de resolver o problema, o sistema aprende a lucrar politicamente com ele.


Semelhança 3: O crédito existe, mas não para quem produz


Toda economia depende de crédito. Sem ele não existe investimento, inovação ou crescimento. No Irã, o crédito é canalizado para sustentar o aparato do regime. Financia armamentos, fortalece a Guarda Revolucionária e protege os interesses da elite no poder.


No Brasil, a lógica muda de forma, mas não de essência. O crédito barato frequentemente vai para o próprio Estado e para grandes grupos empresariais com acesso privilegiado ao poder. São as chamadas "empresas amigas do rei".


Enquanto isso, o empresário comum encontra outra realidade: juros elevados, garantias impossíveis, burocracia e um sistema financeiro que cobra caro demais de quem quer produzir. O resultado é simples: inovação sufocada, crescimento travado e competitividade reduzida.


O custo de simplesmente existir


Empreender deveria significar competir no mercado. No Brasil, muitas vezes significa sobreviver ao sistema. A complexidade tributária brasileira é uma das maiores do planeta. Empresas gastam tempo, dinheiro e energia tentando cumprir regras que mudam constantemente.


O empreendedor passa mais tempo lidando com o Estado do que com seus clientes. Esse custo invisível corrói margens, desestimula investimentos e empurra muitos negócios para a informalidade. Quando seguir as regras se torna inviável, as pessoas começam a contorná-las.


Semelhança 4: Logística, burocracia e barreiras internas

Até mesmo na logística surgem paralelos curiosos. No Irã, sanções internacionais forçaram o regime a criar redes paralelas para comercializar petróleo. No Brasil, não existem sanções externas. O obstáculo é interno.


Impostos sobre circulação de mercadorias, custos logísticos elevados e barreiras burocráticas fazem com que transportar produtos dentro do próprio país seja mais caro e complexo do que deveria ser. O empresário brasileiro muitas vezes enfrenta mais dificuldades para vender entre estados do que para competir no exterior.


Países ricos, sistemas falidos


O paradoxo é evidente. O Irã está sentado sobre vastas reservas de petróleo. O Brasil possui terra fértil, água, energia, minérios e uma das maiores biodiversidades do planeta. Ambos poderiam ser economias vibrantes. Mas sistemas políticos voltados para a autopreservação transformam riqueza potencial em estagnação.


Enquanto isso, o cidadão comum convive com serviços públicos precários, insegurança e oportunidades limitadas. No Irã, a violência aparece na forma de conflitos externos. No Brasil, ela explode nas ruas, alimentada por tráfico, roubos e abandono estatal.


O destino que estamos aceitando


Talvez a comparação incomode. Mas ignorá-la não muda a realidade. Quando o sistema concentra poder, distribui privilégios e penaliza quem produz, o resultado é previsível: uma elite política cada vez mais rica e uma sociedade cada vez mais pressionada.


No fim, a pergunta não é se o Brasil vai virar um Irã. A pergunta é outra: até quando empresários, trabalhadores e cidadãos vão aceitar financiar um sistema que usa a riqueza deles para construir as próprias correntes?


Porque todo sistema de poder precisa de uma coisa para continuar existindo: aceitação. E silêncio.

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